sábado, 25 de fevereiro de 2012

Feiticeira

Narrador:
A fraca bruxa parte, seguindo os desígnios da Deusa.

Bruxa:
- E agora me ponho á caminhar nos vales claros e sombrios, pois assim me instruiu a Senhora. Percorro as trilhas e me abrigo nas grutas. Ouço os pássaros e me alimento das frutas. Conto meus dias no sagrado Sol e meus ciclos na sagrada Lua, pois ambos, juntos, formam o Grande Mistério. Corro junto ao coelho no campo. Canto minhas orações e de esperanças se enchem meus encantos.  A confiança transborda em meu ser e à Grande Mãe deposito o amor ao meu bem-querer. Hoje sou fraca, sei que sou.  Mas, em meu caminho, hei de me regozijar: “A Deusa, em força, me tornou”.

 Narrador:
 E em seu caminho a fraca bruxa muda de pele como a cobra das matas verdes. Em cada passo um novo aprendizado, a esperança no coração e a canção da natureza, voz feminina, embalando a peregrinação. Dias e noites se foram e o pequeno botão despertou, com folhas vistosas, da alma da bruxa uma rosa desabrochou.

Bruxa:

 - Tantas são as cicatrizes que conquistei e muitas foram as glórias conquistadas quando, ao cair, levantei. A magia dançava na aurora, cantando os diversos nomes Dela e abençoando a feiticeira que sou agora. E de mim, muito tive que ofertar para que nesse caminho de aprendizado meu ser pudesse emanar.  Sou a filha das Dádivas Antigas, a própria profecia me falou: “Tens a proteção dos Deuses. És imortal. Sendo assim, tudo te fortalecerá para a jornada seguinte”. Não minto quando digo que existiram aqueles que tentaram me derrubar. Porém, existiram também aqueles que me apoiaram em levantar e continuar, em manter-me de pé. Ambos sempre haverão de existir, basta peneirar as sementes ruins do trigo fértil. Extraindo sempre a positiva experiência de viver os momentos mágicos dessa jornada.

Narrador:
 A Feiticeira se fortalece, no interior de sua caverna e na imensidão do mundo.  As magias engrandecem seu espírito e os suspiros deixam explicações dos mistérios.  A mulher amadurece e envelhece, transformando-se nas lunações, em uma sábia feiticeira: a conquistadora do Antigo Caminho consagrado a Deusa Anciã.

Bruxa:
- Pois a Senhora me ensinou que os segredos mais distantes encontravam-se em mim, em meus irmãos e em meus amantes. Houve o tempo de plantar, ouve o tempo de colher, sinto o Teu chamar, Senhora. É chegado o tempo de renascer. Minha beleza o tempo levou, as lágrimas me fortificaram e ainda conto nos dedos os amigos que, vivos, ficaram. Muitas crianças eu ajudei a nascer, com minhas ervas muitos já se curaram, meu destino está comprido e meus passos terminaram. Não deixarei de andar, apenas seguirei outro caminho. Sabemos todos que essa vida é circular e que gira como um moinho. Fiquei conhecida como bruxa, feiticeira e parteira, mas minha maior preciosidade é saber-me Tua herdeira. Deixo aqui as minhas jóias, que conquistei na minha jornada: “Ama, chora, vive e dança, pois a Vida é para ser vivenciada”. Calo minha boca e fecho os meus olhos, sinto o suave beijo Dela em minha fronte, deixo minha história para que alguém, algum dia, com grande alegria, a conte...

 Narrador:
 E a bruxa falece praticando sua magia, seu corpo foi enterrado nas colinas em que vivia. Até os tempos, falava-se das memórias de seu caminho, ela sabia o que dizia, ela conhecia cada vizinho. Suas pernas andaram tudo o que podiam, a Praticante chegou ao país aonde muitos chegariam, se possuíssem os sinceros sentimentos para a magia: o amor para com a Arte e o respeito aos que a seguiam.

Autora: Morgan Le Fay