sábado, 25 de fevereiro de 2012

Ego - Esvazie a sua Xícara

Bhagwan:
O mestre japonês Nan-in concedeu uma audiência a um professor de filosofia.
Ao servir o chá, Nan-in encheu a xícara de seu visitante,
mas continuou despejando sem parar.


O professor ficou observando o transbordamento
até não poder mais se conter.
Pare!


A xícara está mais do que cheia, nada mais cabe aí.
Nan-in disse:
Como esta xícara, você também está cheio de opiniões e idéias
Como posso mostrar-lhe o Zen, sem que antes você esvazie a sua xícara?
Você encontrou uma pessoa ainda mais perigosa que Nan-in, pois nem uma xícara vazia servirá. A xícara tem de ser totalmente quebrada. Mesmo vazio, se você está presente, então está cheio. Até o vazio preenche você. Se você sente que está vazio, não o está absolutamente. Você está aí. Apenas o nome mudou. Agora você se chama vazio. A xícara não adiantará nada. Tem de ser quebrada completamente. Só quando você não estiver, o chá poderá ser despejado em você. Quando você não estiver, não haverá realmente necessidade de despejar o chá em você. Quando você não está, a existência inteira começa a se derramar, a existência inteira torna-se uma chuva abundante, vinda de todas as dimensões e direções.

Quando você não está, o Divino está.
A história é bela. Só podia acontecer com um professor de filosofia. A história diz que um professor de filosofia foi ver Nan-in. Ele deve ter ido por motivos errados, pois um professor de filosofia, como tal, está sempre errado.
Filosofia significa intelecto, raciocínio, pensamento, argumentação. E esta é a maneira de estar errado, pois você não pode amar a existência se gosta de argumentar. A argumentação é a barreira. Se você argumenta, discute, você está fechado. Toda a existência se fecha para você. Então, você não está aberto, e a existência não se abre para você. Quando você argumenta, você afirma. Afirmação é violência, agressão, e a verdade não pode ser conhecida por uma mente agressiva, a verdade não pode ser descoberta pela violência. Você só conhece a verdade quando ama. Mas o amor nunca argumenta. Não há argumentação no amor, pois não há agressão.
Lembre-se: não apenas aquele homem era um professor de filosofia; você também é. Todo homem carrega sua própria filosofia; e todo homem é um professor, à sua maneira, pois você professa as suas idéias. Acredita nelas. Você tem opiniões, conceitos.
Por causa das opiniões e conceitos, seus olhos estão embaçados, não podem ver; sua mente é estúpida, não pode conhecer. Idéias criam estupidez, pois quanto mais idéias existem, mais a mente está carregada. E como a mente carregada pode conhecer? Quanto mais idéias existem, mais elas se tornam como poeira que se acumula sobre um espelho. Como pode o espelho espelhar? Como pode o espelho refletir? Sua inteligência fica realmente coberta por opiniões, pela poeira, e qualquer pessoa com opiniões certamente será estúpida e sem brilho.
Por isso os professores de filosofia são quase sempre estúpidos. Eles sabem demais para realmente saberem alguma coisa. Estão muito carregados. Não podem voar pelo céu. Não podem ter asas. Estão demais em suas mentes, não podem ter raízes na terra. Não estão enraizados na terra e não estão livres para voar no céu.
E, lembrem-se, vocês são todos iguais. Pode haver diferenças de quantidade, mas todas as mentes são qualitativamente as mesmas, pois a mente pensa, argumenta, coleta, junta conhecimento e torna-se estúpida. Apenas as crianças são inteligentes. E se você puder preservar sua infância, se puder recuperá-la continuamente, você permanecerá inocente e inteligente.
Se você acumula poeira, a infância é perdida, a inocência deixa de existir, e a mente torna-se estúpida e embaçada. Agora você pode ter suas filosofias. E quanto mais filosofias tiver, mais longe estará do Divino.
Uma mente religiosa é não-filosófica. Uma mente religiosa é inocente, inteligente. O espelho está claro e limpo. O pó não se acumulou. E todos os dias uma limpeza está sendo feita, continuamente. É isso que chamo de meditação.
Aquele professor de filosofia foi ver Nan - in. Ele deve ter ido por motivos errados. Deve ter ido para conseguir algumas respostas. As pessoas que estão cheias de perguntas, estão sempre procurando respostas, e Nan-in não podia dar uma resposta. Ë tolice preocupar-se com perguntas e respostas.
Nan-in podia dar-lhe uma nova mente, Nan-in podia dar-lhe um novo ser, Nan-in podia dar-lhe uma nova existência, na qual não surgem perguntas, mas Nan-in não estava interessado em responder a nenhuma pergunta em particular. Não estava interessado em dar respostas.
Nem eu tampouco. Você deve ter vindo aqui com muitas perguntas. É sempre assim, pois a mente gera perguntas. A mente é um mecanismo para criar perguntas. Alimente-a, e ela lhe dará uma pergunta, e muitas outras se seguirão; dê-lhe uma resposta, e imediatamente ela a converterá em muitas perguntas. Você está aqui cheio de perguntas. Sua xícara já está cheia. Não é necessário Nan-in despejar mais chá dentro dela; você já está transbordando.
...
A filosofia tem muitas perguntas, muitas respostas — milhões delas. A religião tem apenas uma resposta. Qualquer que seja a pergunta, a resposta permanece a mesma. Buda costumava dizer: Onde quer que você experimente a água do mar, o gosto é sempre o mesmo, sempre salgado.
Qualquer coisa que você pergunte é realmente irrelevante. Responderei da mesma maneira, pois tenho apenas uma resposta. Mas esta única resposta é como Uma chave - mestra: abre todas as portas. Não pertence a nenhuma fechadura em particular — a chave abre qualquer fechadura. A religião tem uma única resposta, e essa resposta é a meditação. E meditação significa a maneira de você se esvaziar. 
Aquele professor devia estar cansado de tanto andar quando chegou à cabana de Nan-in. E Nan-in disse: Espere um pouco. O homem devia estar com pressa. A mente está sempre apressada, está sempre procurando realizações instantâneas. Para a mente, é muito difícil esperar, quase impossível.
Nan-in disse: Vou preparar um chá para você. Você parece cansado. Espere um pouco, descanse um momento, e tome uma xícara de chá. Depois podemos conversar. E Nan-in ferveu a água, e começou a preparar o chá. Mas ele deve ter ficado observando o professor. Não só a água estava fervendo, o professor também estava fervendo por dentro. Não só a chaleira estava fazendo ruídos, o professor estava fazendo ainda mais barulho dentro dele, tagarelando, falando sem parar. Ele devia estar se preparando - o que perguntar, como perguntar, por onde começar. Devia estar num profundo monólogo. Nan-in deve ter ficado sorrindo e observando: Este homem está muito cheio, de tal maneira, que nada pode penetrá-lo.
A resposta não pode ser dada, porque não há ninguém para recebê-la. O hóspede não pode entrar na casa. Não há lugar. Nan-in deve ter querido tornar-se hóspede dentro daquele professor. Por compaixão, um Buda sempre quer torna-se um hóspede dentro de você. Ele bate, mas não há porta. E mesmo que ele arrombe uma parede, o que é muito difícil, não há lugar. Você está tão cheio de si mesmo, de lixo e de todos os tipos de parafernália, acumulados durante muitas vidas, que nem mesmo consegue entrar dentro de você mesmo. Não há lugar, não há espaço. Você vive fora de seu próprio ser, fica apenas na soleira da porta. Não pode entrar dentro de você mesmo. Tudo está bloqueado.
Então Nan-in despejou o chá dentro da xícara. O professor começou a ficar apreensivo, pois o mestre não parava de despejar. A xícara estava transbordando. Logo o chá escorreria para o chão. Então o professor disse: Pare! O que está fazendo? Nem mais uma gota de chá cabe nesta xícara. Você está louco? O que está fazendo? E Nan-in disse: O mesmo acontece com você. Você está alerta para o fato de a xícara estar cheia, nada mais podendo conter, mas por que não está assim tão consciente a respeito de você mesmo? Você está transbordando com opiniões, filosofias, doutrinas, escrituras. Já sabe demais. Nada posso lhe dar. Você viajou em vão. Antes de vir até mim, deveria ter esvaziado a sua xícara. Então, eu poderia despejar algo dentro dela.
E eu lhe digo que você encontrou uma pessoa mais perigosa ainda. Eu não permitirei nem uma xícara vazia, pois você a encherá de novo. Você está tão viciado, ficou tão habituado, que não deixa a xícara ficar vazia nem por um momento. Assim que vê o vazio em qualquer lugar, começa a preenchê-lo. Você tem tanto pavor do vazio, tanto medo. O vazio se parece com a morte. Você irá preenchê-lo com qualquer coisa, mas o preencherá. E eu o convidei para vir aqui, para quebrar completamente essa xícara, de modo que, mesmo que você queira, não a poderá encher.
Vazio significa que nem a xícara restou. Todas as paredes desapareceram; O fundo da xícara caiu. Você tornou-se um abismo. Então, eu posso despejar-me dentro de você. Muito é possível, se você permite. Mas permitir é árduo, pois para permitir, você terá de se render. Vazio significa rendição. Nan-in estava dizendo àquele professor: Incline-se, renda-se, esvazie a sua cabeça. Estou pronto para despejar. O professor nem sequer fez a pergunta, e Nan-in deu a resposta, pois, na verdade, não é necessário perguntar. A pergunta é sempre a mesma, Quer você me pergunte ou não, eu sei qual é a pergunta.
Muitos de vocês estão aqui, mas eu conheço a pergunta, pois, no fundo, a pergunta é uma só — a ansiedade, a angústia, a falta de sentido, a futilidade de toda esta vida, sem saber quem você é. Mas você está repleto. Deixe-me quebrar essa xícara. O trabalho aqui será uma destruição, uma morte. Se você estiver pronto para ser destruído, algo de novo surgirá. Toda destruição pode tornar-se um nascimento criativo. Se você está pronto para morrer, pode ter uma nova vida, pode renascer. Estou aqui para servir de parteira. Sócrates costumava dizer que um mestre é apenas uma parteira. Posso ajudar, proteger, guiar, apenas isso. O fenômeno real, a transformação, acontecerá em você. Haverá sofrimento, pois nenhum nascimento é possível sem sofrimento. Muita angústia surgirá, pois você a tem acumulado, e ela tem de ser descarregada. Uma purificação e catarse profundas serão necessárias. O nascimento é exatamente como a morte, mas o sofrimento vale a pena. A partir da escuridão do sofrimento, uma nova manhã começa, um novo sol se levanta. E a alvorada não está muito distante quando você sente que a escuridão é demasiada.
Quando o sofrimento é insuportável, a bem-aventurança está muito próxima. Por isso não tente escapar do sofrimento — esse é o ponto onde você pode pôr tudo a perder. Não tente evitá-lo; passe por ele. Não tente achar um jeito de dar uma volta. Não, isso não adiantará. Passe através do sofrimento. O sofrimento queimará você, Destruí-lo-á, mas, na verdade, você não pode ser destruído. O que pode ser destruído é apenas o lixo que você acumulou. O que pode ser destruído é algo que não é você. Quando tudo isso for destruído, você sentirá que é indestrutível, imortal. Passando através da morte, passando conscientemente através da morte, a pessoa torna-se ciente da vida eterna. ...
Esvazie a xícara. Foi o que Nan-in disse. Isso significa esvaziar a mente. O ego está ai, transbordando. E quando o ego está transbordando, nada pode ser feito. A existência inteira está ao redor de você, mas nada pode ser feito. O Divino não pode penetrar em você por lugar algum. Você criou uma fortaleza. Esvazie a xícara. Ou melhor, lance fora a xícara, de uma vez. Quando digo isso, significa que você deverá estar tão vazio, que nem mesmo terá a sensação de que está vazio.
Certa vez, um discípulo foi ver Bodhidharma, e disse: Mestre, você me disse para estar vazio. Agora estou vazio. O que mais me diz? Bodhidharma bateu-lhe fortemente na cabeça com seu bastão, e disse: Vá jogar fora esse vazio. Se você diz: Eu estou vazio, o "eu estou" ainda existe, e o "eu" não pode ser vazio. Portanto, o vazio não pode ser declarado. Ninguém pode dizer: Eu estou vazio, como também ninguém pode dizer: Eu sou humilde. Se você diz: Eu sou humilde — você não é. Quem está alegando essa humildade? A humildade não pode ser declarada. Se você é humilde, é humilde, mas não pode dizê-lo. Não apenas não pode dizê-lo, como não pode sentir que é humilde, pois o próprio sentimento fará surgir o ego novamente.
Seja vazio, mas não pense isso, do contrário, estará enganando a si mesmo. Você trouxe muitas filosofias com você. Abandone-as. Elas não o têm ajudado absolutamente; não têm feito nada por você. Já é tempo, agora é o momento certo. Abandone-as completamente, não apenas partes, fragmentos delas. Nestes dias em que você vai ficar aqui comigo, simplesmente fique sem nenhum pensamento. Sei que é difícil, mas, mesmo assim, digo que é possível. E quando você souber o jeito de fazer isso, quando descobrir o truque, rirá de todo o absurdo da mente que você carregou durante tanto tempo.
Ouvi contar que um homem estava viajando de trem pela primeira vez. Ele era um camponês. Estava carregando a bagagem na cabeça, e pensava: Se eu a colocar no chão, será muito peso para o trem carregar, e eu só paguei para mim. Comprei o bilhete, mas não paguei nada pela bagagem. Por isso, ele estava carregando sua bagagem na cabeça. O trem estava carregando o homem e sua bagagem e, quer ele a carregasse na cabeça, quer a colocasse no chão, não faria nenhuma diferença para o trem.
Sua mente é uma bagagem desnecessária. Não faz nenhuma diferença para essa existência que está carregando você. Você está carregando um peso desnecessário. Abandone-o. As árvores existem sem a mente, e de maneira mais bela que qualquer ser humano; os pássaros existem sem a mente, e num estado mais extático do que qualquer ser humano. Veja as crianças que ainda não são civilizadas, que ainda são selvagens. Elas existem sem a mente. Mesmo um Jesus ou um Buda sentiriam inveja da inocência delas. Não há necessidade dessa mente. O mundo prossegue sem ela. Por que você a está carregando? Está pensando que será muito peso para Deus, para a existência? Quando você consegue eliminar a mente, ainda que por um minuto, toda a sua existência é transformada. Você entra numa nova dimensão, a dimensão da leveza.
E é isso o que vou lhe dar: asas para voar céu afora — a ausência de peso lhe dá essas asas; e raízes para dentro da terra — uma base, um centro. A terra e o céu. São duas partes do todo. Nesta vida, na chamada vida cotidiana, você deve estar enraizado; e em seu espaço interno, na vida espiritual, você deve ser leve, móvel, fluido, flutuante. Se você permitir, eu posso dar a você raízes e asas, pois sou apenas uma parteira. Não posso fazer a criança sair à força de você. Uma criança tirada à força será feia, e poderá morrer. Simplesmente, deixe que eu o faça. A criança está ai; você já está prenhe. Todos estão prenhes de Deus. A criança está ai, e você já a carregou por muito tempo. O período de nove meses já passou há muito. Talvez seja esta a causa da sua angústia — você está carregando em seu ventre algo que precisa nascer, que precisa vir para fora, precisa ser dado à luz.
Imagine uma mulher, uma mãe, carregando uma criança em seu ventre, depois do nono mês. Será cada vez mais difícil de suportar e, se o nascimento não acontecer, a mãe morrerá, pois não poderá agüentar. Talvez seja esta a razão de você ter tanta ansiedade, angústia, tensão.

Algo precisa nascer de você; algo precisa ser gerado do seu ventre. Eu posso ajudar. Esse trabalho que vamos fazer aqui, para um êxtase e iluminação interiores, e que chamei de Samadhi Sadhana Shibir, será uma ajuda para você, para que aquilo que você vem carregando até agora como uma semente possa sair de seu solo e tornar-se algo vivo, uma planta viva. Mas o ponto básico será este: se você quiser estar comigo, não poderá estar com a sua mente. Ambos não podem acontecer ao mesmo tempo. Sempre que você estiver com a sua mente, não estará comigo; sempre que a mente não estiver presente, você estará comigo. E só poderei trabalhar se você estiver comigo. 

Do livro "Raízes e Asas
de Bhagwan Shree Rajneesh
Palestra baseada em uma história zen,
proferida em 10 de junho de 1974,
em Poona, Índia